O zeitgeist dos Lecionários Romano, Comum e Comum Revisado

Quem acompanha meu modesto trabalho sabe da minha labuta contra as abstrações acadêmicas que norteiam as leituras bíblicas, sejam elas liberais ou não (sim, a dita leitura ortodoxa também está permeada de helenismo). Creio que, mesmo quando julgamos estar desenterrando o texto bíblico, o soterramos ao lê-lo a partir de categorias anacrônicas e anatópicas. 

A hipótese Documentária é talvez o exemplo mais agudo desse anacronismo e anatopismo. Rolf Rendtorff teria sido o primeiro, no seio da academia, a ofertar uma alternativa razoável e incisiva a tal hipótese. A hipótese de Rendtorff, ao contrário da Documentária, lê os textos considerando seu projeto literário acabado, sua materialidade. A abordagem de Rendtorff, parece-me, favorece a lectio continua, ao passo que a Documentária favoreceria uma leitura descontínua das Escrituras.
 
O clero romano da primeira metade do século vinte redescobriu, ironicamente, as Escrituras a partir da teologia alemã. Tal teologia, por sua vez, foi o berço da hipótese Documentária. Ora, parece-me razoável supor que o Lecionário Romano (Ordo Lectionum Missae), instaurado por ocasião do Concílio Vaticano II, tenha o seu zeitgeist nesse tipo de abordagem das Escrituras. Portanto, o Lecionário Comum e o Lecionário Comum Revisado, os quais apontam para o Lecionário Romano, pelo óbvio, pertenceriam ao mesmo zeitgeist. 

Sou da opinião de que a depender da formação acadêmica/teológica estaremos mais ou menos inclinados a uma ou outra maneira de ler as Escrituras. Isso pode ser consciente ou não, mas creio que a relação é intrínseca. Sim, aquela premissa acadêmica, supostamente alheia à vida devocional, interfere decisivamente na lectio divina.
 
Você pode estar se perguntando: "Ok, a hipótese de Rendtorff pode até favorecer a lectio continua, mas não aponta uma leitura ortodoxa das Escrituras, aponta"? Ao que eu responderia: Não, não aponta, mas abre caminho para.
 
- Rev. Prof. Moacir Gabriel