Calendário litúrgico inchado - Quando o essencialismo dá lugar ao maximalismo

Há muita 'coisa litúrgica' que é passada adiante como se fosse tradição apostólica, mas que na verdade é coisa recente. Coisa ruim? Não necessariamente, mas definitivamente não pertence a uma herança apostólica. Alguém diria que "o que hoje não tem ainda peso histórico tornar-se-á herança um dia para as futuras gerações", ao que eu responderia "sim, se durar, provavelmente tornar-se-á, mas não são apenas os acertos que perduram, erros também". Daí a necessidade de termos cuidado com o que propomos como caminho comum a todos os cristãos. 

Propor um modo de leitura das Escrituras, por exemplo, tem, ao longo dos anos, consequências no letramento bíblico dos fiéis e isso só será percebido com o passar dos anos. As leituras descontínuas (vulgo semicontínuas) de alguns planos de leitura (lecionários) já se mostraram catalisadoras de um letramento litúrgico, mas, ao mesmo tempo, de um anafalbetismo bíblico. O fiel pensa "calendarialmente”/liturgicamente, cita textos bíblicos, mas não pensa biblicamente (John Stott). 

O lecionário original do LOC de 1662 preconiza um plano de leitura bíblica sequencial (confira aqui), com leituras matinais e vespertinas. Mas, infelizmente, essa lectio continua foi abandonada e deu lugar ao Lecionário Comum e, alhures, ao Lecionário Comum Revisado. Tudo isso, em nome da "unidade" por meio da "uniformidade" e da lectio divina. Ora, desde quando a lectio continua é obstáculo para a lectio divina? Se você quiser entender um pouco melhor o que aconteceu, leia aqui.

Pois bem, o lecionário do LOC de 1662 não foi a única vítima dessa busca da "unidade" por meio da "uniformidade". O calendário litúrgico também foi. O que era um calendário "enxuto" está cada vez mais inchado. 

Ao que parece, o princípio norteador da reforma inglesa, a saber, de que a gente deve andar numa via que seja comum a todos, a fim de preservar a paz e não os egos, está perdendo espaço para o princípio do inclusionismo, o qual assevera que para andarmos juntos precisamos incluir o máximo de "coisas", a fim de que todos se sintam acolhidos e satisfeitos. Vejamos um exemplo:

<<O Tempo da Criação é um conceito introduzido pelo falecido Patriarca Ecumênico, Demétrio I, em 1989. Desde então, o dia 1º de setembro (escolhido por ser o primeiro dia do ano eclesiástico ortodoxo) foi adotado [...] Este é o período, que se estende até o dia de São Francisco, em 4 de outubro, quando igrejas e congregações são chamadas a dedicar atenção especial à responsabilidade da humanidade para com a Terra e todos os seus habitantes. Suas datas de início e término refletem o fato de ser uma ideia compartilhada entre o cristianismo ocidental e o oriental. A organização Churches Together in Britain and Ireland adotou o conceito em 2008. Em 2016, o Papa Francisco declarou o dia 1º de setembro como o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação>>. Fonte: https://www.churchofengland.org/about/environment-and-climate-change/season-creation?utm_source

Bonito, não é mesmo? Soa piedoso e tá no hype! Mas percebam que o Tempo da Criação, tão celebrado hoje por comunidades emergentes com fetiche pelas práticas litúrgicas, sem o ônus de serem comunidades históricas, é claro, foi introduzido "ontem". 

As comunidades históricas, por sua vez, acrescentam uma celebração após a outra ao longo da história e não demora muito não haverá mais dias no ano para comportar tantas datas. Até onde isso vai?

Qual a real necessidade de novas datas e festividades para o calendário cristão? Estamos no caminho certo ao inchar nosso calendário e esvaziar a lectio continua? Estamos a dar protagonismo para o que deveria ser coadjuvante? A continuar nesse ritmo, a Páscoa será apenas mais uma data em um ano tão movimentado. Por sinal, soaria mais razoável, em termos de unidade, que as igrejas do ocidente e as igrejas do oriente procurassem a união a começar pela unificação da data da Páscoa, ao invés de ficar criando novas datas marginais para dar um ar de ecumenismo.

Sou um caminhante, amante do trekking, e sei, pela prática, que a gente carrega na mochila apenas aquilo que precisa; a gente não pergunta qual é o máximo que podemos carregar na mochila, mas apenas pergunta e opta pelo o que é essencial carregar para caminharmos bem.

- Rev. Moacir Gabriel